Os episódios narrados neste breve texto comprovam, entre outras coisas, a necessidade da instalação imediata de um conselho para debater, definir e avaliar de forma permanente as políticas de comunicação da UFPR, o que inclui a produção jornalística tanto da Assessoria de Comunicação Social (ACS) quanto da UFPR TV.
A criação desse tipo de conselho constava da pauta local de reivindicações dos servidores técnico-administrativos da universidade, durante a greve ocorrida entre junho e setembro deste ano.
Conforme termo de negociação assinado em setembro, a administração da UFPR deve apresentar até o início do próximo mês de dezembro a sua proposta de criação de um conselho editorial e outro, de programação.
1. Personalismo e promoção pessoal.
O site da UFPR, informativos impressos e até mesmo parte da grade de programação da UFPR TV têm sido utilizados nos últimos anos, em maior ou menor escala, para atender a objetivos pessoais, que nada têm a ver com o interesse público ou da própria universidade.

Informe Servidor ou informe do reitor?
Um dos exemplos mais nítidos desse processo de instrumentalização dos veículos de comunicação da universidade com fins particulares é o impresso “Informe Servidor”, que mais parece, na verdade, um “informe do reitor”, tamanho o destaque dado sistematicamente a fotografias e a declarações de Zaki Akel Sobrinho.
Como se não bastasse, não raras vezes o próprio reitor se dá ao trabalho de telefonar para a ACS com o objetivo de ordenar a substituição de fotografias publicadas no portal da UFPR.
Exemplo: No dia 15 de dezembro de 2010, o reitor telefonou para a ACS e transmitiu a ordem de substituir a imagem principal que ilustrava a matéria acerca do aniversário de 98 anos da UFPR. Motivo? A foto que estava em destaque mostrava o Coral Infantil da UFPR. E o reitor desejava ver publicada uma outra foto, de si próprio, ao microfone. E assim se fez. A imagem das crianças cantando, com suas camisetas coloridas, foi sacada e substituída por uma foto do reitor, durante seu discurso.
Recentemente, por ocasião da comemoração do Dia Internacional da Mulher, uma vinheta entrou no ar em intervalos da UFPR TV. Alguma reportagem ou quadro especial sobre a questão de gênero? Não. Um pronunciamento do magnífico reitor sobre o que ele acha do 8 de Março. Nem o ex-governador Roberto Requião, que costumava definir pessoalmente algumas pautas da TV Educativa, foi capaz de chegar tão longe em termos de instrumentalização de um veículo de comunicação.
Não se trata de fatos isolados. É uma prática sistemática, que já se repetiu diversas vezes, em vários momentos e de várias outras formas. Aqui estão citados apenas alguns exemplos.
2. Censura e rebaixamento da linha editorial.
No último dia 20, na condição de jornalista da ACS, enviei duas perguntas simples a cada uma das três chapas que disputam a eleição do Sinditest-PR, entidade que representa, entre outros, os servidores técnico-administrativos da UFPR e os funcionários da Funpar.
As duas perguntas eram exatamente as seguintes: 1) “Qual a avaliação da chapa a respeito da atual gestão do Sinditest-PR?; e 2) “Quais as principais propostas da chapa?” Cada uma das três concorrentes deveria responder com no máximo 800 caracteres a cada pergunta.
Todos os e-mails foram enviados simultaneamente às três chapas. O prazo dado para as respostas venceu na tarde da última terça-feira (25).
Horas antes de vencer esse prazo –quando duas chapas já haviam respondido à entrevista–, um dos integrantes da chapa 1, Antônio Néris, informou por telefone que não responderia, alegando que as perguntas seriam “tendenciosas” e “capciosas”, e que supostamente “favoreceriam a oposição”.
Em seguida, Néris telefonou para a chefe provisória da ACS, Ana Paula Moraes, que na sequência me ligou, repetindo a mesma alegação do candidato a presidente da chapa 1.
Transmiti à chefe interina a mesma argumentação que expus ao candidato: 1) Não há favorecimento algum nas duas perguntas. Genéricas, elas são questões abertas para que cada chapa possa, de forma objetiva, apresentar um diagnóstico da atual conjuntura do sindicato e, em seguida, elencar algumas de suas principais propostas de campanha. 2) Além disso, há interesse real por parte da categoria representada pelo Sinditest-PR em relação ao processo eleitoral em curso.
Para minha surpresa, a reportagem foi simplesmente apagada do portal da UFPR.

Clique na imagem acima para ler o texto censurado em formato PDF e tire as suas próprias conclusões
Ainda não consegui apurar se essa decisão de censurar o texto partiu exclusivamente da chefe interina da ACS, do próprio reitor da UFPR ou então de algum de seus outros assessores.
O fato é que houve censura. E essa prática é inadmissível no contexto da comunicação, especialmente dentro de uma instituição pública, e menos ainda dentro de uma universidade. Ou então a UFPR passou a ter gestores que se consideram donos da instituição?
Lamento não apenas o ato de proibir a circulação de um texto jornalístico pela eventual inconveniência a interesses de grupos específicos. Lamento também a falta de resposta aos questionamentos que fiz por escrito, via e-mail, à chefia da ACS.
Verbalmente, após eu insistir em questioná-la, ela alegou apenas que “não cabe à comunicação da UFPR entrar na briga do sindicato” e que a entrevista com as chapas “afetaria o caráter institucional do site da UFPR”. Ora, então existem temas que são tabus dentro da universidade? O espaço universitário não deveria ser o espaço do livre debate e da pluralidade de ideias por excelência?
Informo, por fim, que vou remeter ofício ao gabinete do reitor solicitando esclarecimentos detalhados, por escrito, quanto ao fato ocorrido. Quem decidiu pela censura? Com quais argumentos? Atendendo a quais interesses? Nesse mesmo ofício vou requerer que o conteúdo retirado do ar seja recolocado, e que a ACS produza uma nota pública sobre todo esse episódio.
Imagino que essas respostas não interessam apenas a mim, mas ao conjunto da comunidade que, ainda que eventualmente, acesse o site da universidade ou tenha contato com qualquer outro veículo da instituição.
Registro ainda que este meu desabafo –por ironia feito no Dia do Servidor Público- constitui uma ação individual minha, em decorrência da qual espero não vir a ser alvo de retaliações mesquinhas.
Curitiba, 28 de outubro de 2011.
Fernando César Oliveira, jornalista da Assessoria de Comunicação Social da UFPR e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR).
Leia também:
Curtir isso:
Curtir Carregando...