Promoção pessoal e censura nos veículos de comunicação da UFPR (parte 2)

A primeira parte deste texto apresentou exemplos de personalismo e censura que demonstram a necessidade de haver algum tipo de controle social sobre a gestão dos veículos de comunicação da UFPR.

Hoje, não há nenhum instrumento que possibilite a participação efetiva da comunidade na gestão da política de comunicação praticada dentro da universidade.

Essa política não tem se mostrado plural, nem tampouco democrática. Pelo contrário, as ações de comunicação vêm funcionando como mero suporte para o reitor de plantão e suas vontades, ou mesmo vaidades.

Durante a greve deste ano, os servidores técnico-administrativos conquistaram o compromisso de que até dezembro a administração da UFPR protocolaria sua proposta de conselho de comunicação. Cabe ao conjunto dos técnicos, professores e alunos avaliar o teor dessa proposta, de forma a apontar até que ponto ela atende ou não aos princípios de uma comunicação pública.

Esta segunda parte do texto traz alguns outros exemplos de práticas que revelam uma política de comunicação excessivamente centralizada nos interesses da pessoa do reitor e de gestores que compõem a sua equipe.

E também detalha desdobramentos posteriores ao ato de censura relacionado à matéria sobre o processo eleitoral do Sinditest-PR, ainda em curso.

1) Outros exemplos de práticas condenáveis na comunicação da UFPR.

Em meados de 2009, dias após o avião Airbus A330 que fazia o voo 447 da Air France ter desaparecido no Oceano Atlântico, a Assessoria de Comunicação Social (ACS) da UFPR obteve a informação de que ao menos uma das vítimas possuía uma relação institucional com a universidade.

Tratava-se da professora romena Violeta Băjenaru-Declerck, então com 33 anos de idade. Ela era uma das 228 pessoas a bordo do avião, que fazia o trajeto entre Rio de Janeiro e Paris. Não houve sobreviventes.

Violeta coordenava um projeto de cooperação entre Escola Superior da Madeira (ESB, na sigla em francês), de Nantes, e a UFPR, em vigor desde 2002. Meses antes, Violeta inclusive esteve no gabinete da Reitoria, quando a UFPR assinou um acordo de duplo diploma na área de engenharia industrial madeireira com a instituição francesa.

Alguma preocupação com a memória da professora então desaparecida, ou com o interesse público da informação jornalística em questão? Nenhuma.

Checada a informação, a ACS publicou uma matéria sobre o fato de uma pessoa com relações diretas com a UFPR constar da lista de desaparecidos. Uma professora que conhecia Violeta foi entrevistada.

Minutos após o texto ter ido ao ar, a ACS recebe uma ligação do gabinete do reitor. Motivo do telefonema? A publicação da reportagem desagradara o gabinete, em especial a imagem que ilustrava o texto. Na fotografia, a professora romena aparecia durante uma reunião da qual participaram ex-gestores da UFPR.

Integrantes da atual gestão da universidade simplesmente não admitiam a publicação no site da universidade de uma matéria com uma fotografia na qual apareciam seus antecessores –no caso, uma ex-reitora e um ex-assessor de relações internacionais.

Alguma preocupação com a memória da professora então desaparecida, ou com o interesse público da informação jornalística em questão? Nenhuma. Ao gabinete só interessava apagar a matéria do portal. Para tanto, não importava o fato de a imagem utilizada ser a única de que a ACS dispunha em seu arquivo.

Embora o link original não tenha sido apagado, o texto foi retirado da capa do site da universidade.

Um outro exemplo ilustra que as intervenções do reitor Zaki Akel Sobrinho não se resumem apenas à edição das imagens publicadas pelos veículos da UFPR. Conteúdos em texto também sofrem interferências e modificações substanciais.

Foi o caso da cobertura da inauguração do novo bloco do Setor de Educação Profissional e Tecnológica, em junho de 2010. O reitor não gostou do fato de o texto abordar um protesto pacífico realizado por alunos durante a cerimônia de inauguração.

Tanto o texto quanto a manchete que estão no ar até hoje sofreram alterações profundas, a mando do reitor.

Apesar de o texto ainda ter a minha assinatura, parágrafos inteiros foram adicionados posteriormente. Trechos originais e imagens que mostravam alunos com narizes de palhaço durante a solenidade foram eliminados. Tudo com o objetivo de conferir artificialmente uma conotação positiva à cobertura.

2) Bastidores pós-censura.

Desde a última sexta-feira (28/10), quando publiquei neste blog a informação de que a chefia da ACS retirou do ar uma matéria sobre as atuais eleições do Sinditest-PR, atendendo assim aos desejos do candidato a presidente de uma das chapas –a única, aliás, que se recusou a responder ao pedido de entrevista–, espero uma resposta oficial por parte da UFPR sobre mais esse lamentável episódio.

Na segunda-feira (31/10), protocolei um documento endereçado ao reitor. Até o início da tarde desta quinta-feira (3/11), não obtive resposta alguma.

De concreto, até agora, há apenas o fato de a chefia da ACS ter bloqueado o meu acesso ao sistema de gerenciamento do site da UFPR, através do cancelamento do meu login de usuário. Tomei conhecimento dessa medida arbitrária através de terceiros, registre-se.

Outra “providência” adotada foi a de me excluir tanto do processo de edição de matérias para o portal da UFPR quanto da orientação dos textos produzidos pelos estagiários de jornalismo. Também não fui informado dessa segunda retaliação diretamente pela chefia da unidade.

Repito a pergunta: que argumentos justificariam a censura? Talvez as pessoas que hoje dirigem a UFPR se julguem acima desse tipo de questionamento.

As eleições do sindicato estão marcadas para a próxima quarta-feira (9). Portanto, ainda há tempo para a Reitoria da UFPR e para a atual chefia provisória da ACS se retratarem sobre o ocorrido.

Entrevista com as chapas que disputavam o sindicato em novembro de 2009: Pergunta idêntica foi respondida pelas chapas, sem censura.

Por fim, registro aqui que a ACS já realizou cobertura similar em outras disputas eleitorais.

E pasme-se com o seguinte fato: a mesma pergunta agora atacada pelo candidato a presidente da chapa 1 já havia sido feita na eleição anterior do próprio Sinditest-PR.

No arquivo do site da UFPR é possível acessar uma entrevista com as chapas que disputavam o sindicato em novembro de 2009. Cobertura similar foi feita na eleição de 2010 do DCE.

Acesse e tire você as suas conclusões.

Com a palavra, o reitor da UFPR.

Fernando César Oliveira, jornalista da Assessoria de Comunicação Social da UFPR e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR).

No detalhe, a pergunta feita em novembro de 2009, respondida por todas as chapas que participaram do processo eleitoral.

PS - Soube que ao menos uma pessoa que trabalha no gabinete do reitor Zaki Akel Sobrinho teria cogitado a minha saída da ACS. Desde já informo que não tenho interesse nenhum em deixar a unidade. Se isso vier a acontecer, será à minha revelia.

PS 2 - Ao contrário do que talvez alguns possam imaginar ou insinuar, não estou apoiando nenhuma das três chapas que disputam a eleição do sindicato.

Leia também:

Promoção pessoal e censura nos veículos de comunicação da UFPR (parte 1, postada em 28.out.2011)

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5 comentários sobre “Promoção pessoal e censura nos veículos de comunicação da UFPR (parte 2)

  1. Pingback: Comissão de Ética da UFPR terá que se pronunciar sobre episódio de censura « MobilizaUFPR

  2. Temos que fazer valer na prática o entendimento de que o direito à Comunicação livre é um direito do cidadão. Mas marqueteiro não entende nada disso. Marqueteiro que só pensa no fim almejado mente o quanto pode para vender seu peixe. Marquetagem é a praia do sr. reitor. Agora, imaginem uma “campanha” eleitoral de reitor em 2012 onde o espaço para a marquetagem tradicional (“vender o candidato”) seja imensamente restringida. Nào restringida como restrição à liberdade de expressão mas sim como regulação da propaganda. Então, os mágicos poderes da marquetagem se encolhem bastante. Pensem nisso.

  3. Ave César!

    Infelizmente a instrumentalização da informação, assim como do conhecimento é a regra colega. Saber e poder se enamoram constantemente e não creio que possamos mudar algo.
    Mas, vai que….

    • Claro que podemos mudar!
      Já diz a frase:
      ” Se continuar fazendo o que sempre fez, continuará obtendo os mesmos resultados!”
      Vamos melhorar as coisas quando todos entenderem isso!
      Nós não devemos temer nossos governantes, eles é que deve nos temer!!

  4. Pingback: Promoção pessoal e censura nos veículos de comunicação da UFPR | GreveUFPR.org

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